Borboletas
não podem andar
A
pequena O segundo nome deMartin era Alexander…seus
pais o queriam grande e forte. Mas Martin não era forte. Era um garoto legal,
mas não era forte. Ele tinha um longo caminho a
percorrer na terra. Ele não podia andar. Só podia engatinhar
poucos passos. Ficava cansado facilmente e feliz ao chegar à próxima
cadeira. Lá ele tentava ficar de pé. Olhava em volta com seus bonitos
olhos escuros e via coisas que não podia entender. Algumas vezes,
pessoas paravam em frente a
ele. Pessoas curiosas sobre esse pequeno garotinho. E sentiam dó. Elas não sabiam que ele era uma
Ele tinha
de seguir sua longa e difícil caminhada, acompanhado de uma porção de
pessoas: seus pais, seu pequeno irmão, seus avós, tios e tias, amigos,
professores, colegas. Todos o ajudavam a prosseguir em sua jornada.
Carregado nas costas por seu pai, colocado na piscina por sua
mãe, seu carrinho
empurrado por sua avó, montado no cavalo de sua tia, na bicicleta de seu
tio… Assim ele ia. Andar foi
fácil só no começo. Após algumas
semanas tudo se tornou mais e mais difícil. Ele conheceu pes-soas
vestidas de branco. Eles disseram:
- “Oh, meu Deus ! Por que você tem esses pezinhos tão pequenos ? E como você não pode andar ? Vamos ver como
podemos ajudá-lo ...” E eles operaram suas pequenas pernas e as
colocaram em gesso por várias semanas. Agora, ele não podia mais andar de jeito nenhum, e nem ao menos engatinhar. E o caminho foi se tornando mais difícil.
Ficou um pouco mais complicado para os seus amigos carregá-lo ou empurrar
seu carrinho. Ele
encontrou muitas pessoas. A maioria fez amizade com ele imediatamente.
Eles gostavam de vê-lo. Ele parecia tão pequeno e tão frágil…Todos
queriam muito ajudá-lo. E o carregavam, empurravam
seu car-rinho…Algumas vezes segurar seu carrinho para não descer
a colina era o bastante. O que ele mais gostava
era de seu carro vermelho. Ele se sentia como os outros que por ele
passavam em seus carros
reais. Aos sábados, ele adorava passear de carro com
seu pai. Era o seu momento preferido. Eles eram tão próxi-mos um do
outro… Martin conhecia aquelas estradas. Elas iam dar
num lugar muito particular. E se seu pai
demorava mais para chegar lá, ele o lembrava: “Anta”, dizia
com sua vozinha suave. E isso chamava a atenção de seu pai para o fato de que ele ansiava por ver seu
amigo, um cavalo chamado “Santa”. Isto porque borboletas gostam de cavalos,
talvez por serem diferentes em vários aspectos: cavalos são
for-tes e rápidos. Mas também são semelhantes em outras pequenas
coisas importantes para
pequenas borbo- letas: gostam de ser tocados e de ter alguém sussurrando
em seus ouvidos. E o caminho de Martin começava a ficar mais
íngreme…
Os que empurravam seu
carrinho podiam perce-ber isso facilmente. As
pessoas continuavam a lhe
dar apoio, carregando-o, removendo obstáculos
à sua frente,
oferecendo-lhe um pouco de luz, quando tudo à sua volta ia escurecendo.
Eles tocavam música para ele, seguravam o guarda-chuva quando chovia… Eles
falavam com seus pais, abriam
espaço para ele passar e acenavam para ele. Outros eram muito distantes. Disseram
a seus pais que
era demais para eles e que seria tudo
em vão de qualquer modo: “
Vocês deviam deixá-lo voar, seria bem mais fácil para vocês.” Mas seus pais não acreditavam que seria mais fácil
sem ele… Ele nunca aprendeu a falar. Ele tinha, sim, uma
linguagem secreta, que podia ser entendida pelas pessoas mais chegadas. Avó era “Omma”, bem fácil de
entender. A tia que o levava em seu cavalo era “Aana”, seu pai
“Abba”.Quando queria ir à piscina, falava “Emba”. Sim…ele desenvolveu sua própria linguagem.
Quando queria batatas fritas, batia três vezes na mesa. E ele fez isso
muitas e muitas vezes, pois adorava batatas fritas. Para as pessoas que não sabiam que ele
tinha, não uma, mas duas avós chamadas Anneliese, ele levantava
dois dedinhos para melhor se fazer entender. Sua atividade predileta era nadar na água
morna. Ele se sentia leve e não precisava confiar em suas pernas
fraquinhas. |
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Um dia tudo ficou
completamente escuro ao redor da pequena
Seus amigos precisavam
chegar muito perto para poderem
se comunicar. Martin
foi ficando mais e mais
triste. Seus amigos lhe diziam
“Fique conosco. Faremos o
que for preciso para ajudá-lo. Nós somos
fortes, capazes de ver. Seremos suas pernas e seus olhos, porque
você é o nosso coração”. |
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Um dia ele foi para um país onde as
pessoas falavam uma língua diferente do que a da Alemanha. Mas ele
era capaz de compreender o
que diziam. Eles falavam a sua
língua. Eles o pegavam nos
braços, o abraça-vam, dançavam samba com ele. As palavras sussuradas em
seus ouvidos podiam muito bem ser entendidas por borboletas. Infelizmente,
esse país era muito quente e
ele teve de sair de lá.
O povo desse país acenou
adeus para ele. Mas ele pôde sentir suas lágrimas e ouvir seus sussurros
por toda sua vida. Ele foi,
então, mais uma vez para um outro país, onde ele não encontrava
pessoas na rua. Eles passavam de
carro, e algumas vezes nem se podia dizer que fossem seres humanos,
dentro desses tão grandes carros. Esse país não era tão quente quanto o
anterior. Era, no entanto, mais quente do que a Alemanha. E ele gos-tou. Era pego por um grande ônibus amarelo, para ir
à escola. Quase igual ao que pegava seu irmão. Ele conheceu gente que lhe disse “Vamos ver
o que podemos ensinar a você.” E eles iam nadar, faziam
pin-turas, aprendiam a amassar latas. Algumas vezes, a sala inteira ia às
compras. Eles colocavam músicas para ele e ele, realmente, gostava muito
de música. Quando a avó ligava da Alemanha, sua mãozinha
direita abanava para frente e para trás. E do país distante, pelo
telefone, ele ouvia sua música favorita
“Klingglockchen, klingelingeling”. E queria ouvi-la por todo o dia… O tempo nesse país era ideal para pequenas
borboletas. Não levou muito tempo para ele perceber que havia outras
borboletas perto dele. Antes estavam longe, mas aos poucos iam se
chegando, e logo ele percebeu que eram seus irmãos e irmãs.
Assim como ele, os outros também eram empurrados em seus carrinhos
por seus pais, família, amigos. Poucos
deles eram capazes de dar alguns
passos com suas pernas
fraquinhas. Eram todos como ele… alguns mais fortes, outros mais
fracos. Alguns maiores, outros menores. Algumas
vezes eles se sentiam muito
próximos. Eles se chamavam, se tocavam as
mãos, se davam tapinhas nas cabeças. Eles eram bons uns com os outros. Quando
estavam separados, um sempre sabia onde o outro se encontrava. E não importando quão distante estivessem um
do outro, todos caminhavam na mesma direção. Eles tinham diferentes
modos de ir, alguns até mais difíceis do que o Martin. Algumas vezes faziam progressos. Havia
também momentos em que tudo acontecia ao mesmo tempo: a estrada se
tornava tortuosa, ficava tu-do escuro e chuvoso, o vento sacudia os
carrinhos. Ele viu alguns de seus amigos-borboleta abrirem suas a-sas e
levantarem vôo
para sempre… As famílias
das borboletas que se foram sentiam o
carrinho mais leve. Mas não tinham mais a
força que possuíam
antes. Estavam tristes e choravam ao ver Martin, pois ele trazia à
lembrança suas próprias peque-nas borboletas. Agora o caminho se tornava mais estreito e mais
difícil. Martin tinha dor de dentes e não era mais capaz de comer. Uma
vez mais ele se encontrou com os homens
de branco, que disseram
“Você não precisa mais de
seus dentes. Pode ser alimentado por um tubo.” Martin nunca
foi um grande comilão. Agora ele não
tinha mais de comer. Nào mais bananas, não mais
ba-tatas fritas , não mais sorvetes… Martin foi ficando cada vez mais passivo. A
cada dia ele precisava de menos. Muitas vezes ficava deitado nu-ma
almofada escutando música.
Seus amigos lhe perguntavam
“Você precisa
de quê? Gostaríamos
de lhe dar um presente…” Ele
não respondia. Parecia aos outros que ele tinha tudo de que necessitava. |
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O caminho ficava cada vez
mais íngreme, escuro e chuvoso. O vento começou a soprar. Seus amigos
ficaram assustados – eles haviam visto outras pequenas borboletas alçarem
vôo em si-tuações semelhantes. Eles diziam “Fique conosco, Martin.
Você é o nosso coração. Nós
precisamos de você. Não
nos deixe sozinhos.” Mas o vento soprava mais
forte agora… As asinhas de Martin começaram
a tremular e ele disse “Amo vocês também. Só aguentei até aqui
porque ti- ve vocês, meus pais, nossa família, nossos amigos,
professores e colegas. Vocês se revezaram me carregando e empurrando meu
carrinho. Agora estamos todos cansados. Eu
preferia ficar, mas
vocês sabem…tenho
de ir.” E o vento agora estava
muito, muito forte. A pequena
Seus amigos o abraçaram uma última vez. Beijaram sua testa e disseram “ Voa, Martin, voa !! .” |